Mito – breve história sobre o Tempo

“…Suponhamos que as pessoas vivam eternamente. Estranhamente, as populações de cada cidade estão divididas em dois grupos: os Depois e os Agoras”.

Os Depois consideram que não há pressa para entrar na universidade, para começar a aprender uma segunda língua, para ler Voltaire ou Newton, para lutar por uma promoção, para se apaixonar, para constituir família. Para todas essas coisas há um tempo infinito. No tempo sem fim, todas as coisas podem esperar. Na verdade, ações apressadas podem levar a erros. E quem pode argumentar contra a lógica dessas pessoas?  Os Depois podem ser reconhecidos em qualquer loja ou passeio. Seu andar é tranqüilo e eles usam roupas folgadas. Gostam de ler qualquer revista que apareça aberta, de rearranjar os móveis em casa, ou iniciar uma conversa com a mesma facilidade com que uma folha cai de uma árvore. Os Depois deixam-se ficar nos cafés bebericando café e discutindo as possibilidades da vida.

Os Agoras percebem que, com vidas infinitas, eles podem fazer tudo o que puderem imaginar. Terão um número infinito de carreiras, casarão um número infinito de vezes, mudarão suas crenças políticas infinitamente. Cada pessoa será advogada, pedreiro, escritor, contador, pintor, físico, fazendeiro. Os Agora estão constantemente lendo novos livros, aprendendo novos ofícios, novas línguas. De modo a experimentar a infinidade da vida, eles começam cedo e nunca vão devagar. E quem pode argumentar contra a lógica dessas pessoas? É fácil identificar os Agoras. São donos dos cafés, os professores universitários, os médicos e enfermeiras, os políticos, as pessoas que balançam as pernas constantemente quando se sentam. Eles transitam por uma sucessão de vidas, dispostos a não deixar escapar nada. Quando dois Agoras encontram-se casualmente (…), comparam as vidas que conquistaram, trocam informações e olham seus relógios. Quando dois Depois se encontram no mesmo local, conversam sobre o futuro e seguem com os olhos a parábola de água do chafariz.

Os Agoras e os Depois tem uma coisa em comum. Como a vida é infinita, ambos tem uma lista infinita de parentes. Avós nunca morrem, tampouco bisavós, tias-avós e tios-avôs, tia-bisavós, e assim por diante; gerações de antecedentes afora, todos estão vivas e dando conselhos. Filhos nunca se livram da sombra dos pais. Nem filhas se livram da sombra das mães. Ninguém está sozinho.

(…) Este é o preço da imortalidade. Ninguém é completo. Ninguém é livre. Com o tempo, alguns chegaram à conclusão de que o melhor jeito de viver é morrer. Na morte, homens e mulheres estão livres do peso do passado. Essas poucas almas, sob a sombra dos parentes queridos, mergulham no lago Constança ou jogam-se do monte Lema, pondo fim às suas vidas infinitas. Desta forma, o finito conquista o infinito, milhões de outonos se transformam em nenhum outono, milhões de nevascas se transformam em nenhuma nevasca, milhões de advertências se transformam em nenhuma advertência.(…)”. (Lightman, Alan “Sonhos de Einstein”, Cia. das Letras, 1993, SP – pg 114 a 118).

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A ORIGEM DAS RELAÇÕES – Mito, Genética e a Espiritualidade

Todos conhecem o mito judaico-cristão que trata do pecado original através da história dos personagens Adão e Eva que, ao comerem o fruto proibido, iniciaram a expulsão de ambos do paraíso, dando origem à imperfeição humana e ao mal. Soma-se a isto a necessidade do trabalho, da morte e de outras questões que são as origens de males que assombram os homens em sua passagem terrena. Curioso saber que esta narrativa será encontrada em diversos mitos de sociedades antigas espalhadas ao redor do mundo e que são anteriores às tradições judaico-cristã e, certamente, anterior à tradição católica a qual você esta acostumado; estas sociedades sequer tiveram contatos com estas civilizações. Nelas, encontraremos outros animais que não a serpente como causadores do estímulo pecaminoso dos homens; mas sempre um animal é o agente desta corrupção: o que evidencia a chegada do reino animal muito anterior a dos homens, supondo-se, então, que essa é a razão da serpente e destes outros animais conhecerem as coisas do mundo e os desígnios de cada ponto da natureza criada por Deus. Nos mitos, em sua maioria, a inveja dos animais sobre a nova criação de Deus é a causadora da mudança do destino e não o Diabo, como fez acreditar a tradição bíblica.  Há mitos que contam a história original, trazendo a personagem Lilith e não Eva como a primeira mulher de Adão e contando que ela fora criada do mesmo barro que ele, com agravante que tenha sido gerada à noite e com energia inversa a dele, e que esta característica era a origem da energia de sombras e subversão e, por esta razão, ela foi banida do convívio com Adão. Eva, a segunda esposa, é gerada de uma parte (costela) dele, portanto, submissa a seu poder e com menos inteligência e virtudes, o que supostamente a tornou mais facilmente corruptível pela serpente, como deixa transparecer o mito. Esta desobediência ou descuido humano rompe o acordo como a divindade e sela o destino dos humanos que passam a serem escravos do trabalho, sujeitos à mortalidade e a procriarem através do sexo, e pune a mulher com a dor do parto.

Interessante ilustração desta afirmativa pode ser encontrada num mito brasileiro “… Yau-Ypirungua ou princípio da fruta. Conta este mito que no mundo os homens eram como animais, comendo só capim e ervas rasteiras, pois só folhas verdes existiam. De vez em quando, o vento levava ao nariz deles um delicioso cheiro de frutas. Mas ao tentar seguir o cheiro eram frustrados com a mudança de direção do vento e nunca encontravam o lugar de origem do aroma de frutas. Certo dia, um bicho (acutipuru) revelou a um roceiro, que logo contou aos outros homens, o local das árvores de frutos. Os homens reuniram-se e seguiram o bicho até o local e se puseram a derrubar as árvores para apanhar os frutos. Ao fazerem isto chamaram a atenção de “Uansken”, divindade que era dona das árvores de frutos, que imediatamente se zanga com o bicho que levou os homens até o local, e adverte a todos que as frutas não estão maduras e que esta ação prejudicará o futuro das colheitas e sua utilidade para os seres. Mesmo sendo advertidos, os homens não se incomodam e continuam sua empreita. Irritado, “Uansken” amaldiçoa-os dizendo que, a partir daquele dia, se os homens quisessem se fartar das frutas, teriam que plantá-las e esperar muito mais tempo do que aquele que ele oferecia amavelmente a eles, dando início à agricultura e à fome…”

 Aqui observamos novamente a participação de um animal que é responsável por insuflar a desobediência dos homens e estragar a existência humana, fazendo com que ela passe a sofrer e seja expulsa do paraíso, perdendo também a tutela direta das divindades em sua passagem na terra.

Anos mais tarde, estudos e uma nova interpretação sobre os mitos nos trazem mais luzes sobre o tema e revelam o pecado original como o ato sexual. Podemos tomar o nascimento de Jesus como um grande exemplo que nos aponta para esta hipótese. Jesus é gerado sem o ato sexual, o que garante a sua divindade e a não contaminação obrigatória no existir humano, que passa invariavelmente pela relação carnal entre o homem e a mulher. Imaculado, ele pode exercer suas funções “crísticas”. Faz crer desta forma que só um poder acima dos homens poderia ser possível de tal prerrogativa, nascer entre eles sem passar pelo mesmo processo. Histórias deste nascimento divino vão também aparecer nas sociedades anteriores à chegada de Jesus, como relatei no livro Numerologia do Tempo, onde aponto o mito que está relacionado com a origem do dia 25 de dezembro: neste momento o sol alcança seu zênite e, quando isto ocorria, nascia entre os homens o filho do sol de maneira divina, gerado pelas mãos de Deus. Não quero estender nesta discussão sobre a existência, a divindade ou não de Jesus, muito menos sobre as evidências históricas do seu personagem, até porque nossa problemática se inicia muito antes da sua chegada, apenas atento aqui ao fato que seu mito evidencia e apóia a hipótese que em breve discorrerei.

Podemos supor que a vida humana dependa, além obviamente das condições oferecidas pelo planeta, de dois agentes fundamentais: o homem e a mulher, que irão gerar como fruto desta relação mais um ser (o filho). É obvio que este outro ser não pode ser gerado sem seu oposto, mesmo que aqui façamos uma pausa para um mito antigo, tão bem retratado pelos antropólogos e que foi lentamente deixado de lado no século XX, que é o tabu do incesto, que ainda hoje faz tremer e preocupar aqueles que honestamente pensam sobre o tema. Mas como provocação, deixo aos interessados em se aprofundar no tema uma citação em Genesis 2:24 “… deixar sua mãe e seu pai apegar-se-á a sua mulher, e serão ambos uma carne…”.

Deixando de lado o tabu de incesto, a relação da vida que se funda é resultado do pecado original, que é o sexo que se materializa na tríade que se forma entre pai, mãe e filho. Esta matriz original é responsável, grosso modo, pelo nosso existir no mundo. E se olhar ao seu redor verá que todos nós viemos, ou melhor, somos resultado da relação sexual dos nossos pais, que são nossos princípios vitais ancestrais mais próximos e você pode por esta ótica a ver Adão e Eva como nossos parentes mais distantes ou, em suma, a origem que vai desembocar em você. Trazendo isto para um âmbito familiar, imagine que você é o resultado deste “Adão e Eva” da sua família, ou seja, seus princípios vitais ancestrais mais distantes. Como esta é uma perspectiva nova no teu pensar, comece se indagando quantas histórias ao longo da ancestralidade que te antecede, no que toca a relacionamentos, desenganos, escolhas materiais, problemas, doenças e todo tipo de ação que norteia a vida humana, seus ascendentes passaram?  Talvez você só conheça a de seus pais e nem tenha noção de quem foram e como viveram seus avós, bisavós e tataravós, mas pode imaginar pela sua própria existência, que assim como você eles também tiveram questionamentos sobre casamento, família, tiveram seu primeiro amor, beijo, transa e tudo que envolva uma trama amorosa. Pensou?

Enquanto você pensa sobre isto, voltemos ao nosso raciocínio e observe a estranha relação que podemos fazer entre o mito, a genética e a espiritualidade. Segundo o mito, Adão é gerado à imagem e semelhança de Deus; segundo a genética, podemos ser resultado de geração espontânea. Em seguida, Eva é criada da costela de Adão; segundo a genética, nas primaveras da existência, as gerações eram feita de forma assexuada. Ao morderem a maçã, eles se reconhecem como seres e aprendem sobre os prazeres e, da relação carnal entre eles, nasce Caim que significa “possessão”. Segundo a genética, com passar do tempo se verificou que a reprodução sexuada em curto prazo oferecia vantagens significativas em relação à assexuada. Portanto podemos supor que o gênero masculino e feminino são produtos de uma mutação genética e que as relações se fizeram necessárias a partir do momento em que houve a separação que originou os sexos…

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Òrun-Àiyé – principal mito africano sobre reencarnação

Orí e o Destino[1]

                Os objetivos por que uma pessoa é criada estão relacionados ao seu destino. Todas as ações do homem na Terra são predestinadas por Olodumare e determinadas de três formas:

1ª. A pessoa se ajoelha e escolhe o seu destino. Esta forma é denominada Àkùnlè Yàn – “Aquela que se ajoelha e escolhe”;

2ª. A pessoa se ajoelha e recebe o seu destino, que é denominado Àkùnlé gbá – “Aquele que se ajoelha e recebe”;

3ª. O destino lhe é fixado, lhe é determinado. Esta forma é denominada À Yan mó – “Aquele que escolhe e determina o destino para alguém”.

Assim, são estabelecidas três forma de destino, cuja sustentação está no fato da pessoa ter de se ajoelhar perante Olodumare para confirmação daquilo que lhe é destinado. O que quer que lhe seja confiado é inalterável e se torna parte da pessoa para o resto da vida. Todo esse ritual é assistido por Orunmila, que se torna testemunha do que está sendo determinado. Por essa razão, as nuances deste destino podem ser devidamente acompanhadas, através de consulta a Orunmila – Ifá, e com a possibilidade de reajustar o que está em dissonância com o que foi determinado.

Nessas ocasiões é que Olodumare entrega à pessoa o seu orí inú; o ìpònrí, a força vital ancestral; o orixá, a divindade tutelar e os ewò, os tabus, as proibições e deveres. Posteriormente, tudo retornará à Olodumare para julgamento das ações da pessoa na Terra. O conhecimento do nome de todos estes elementos e seus guardiões será revelado através de jogos divinatórios mediante consulta.

Quando esta cerimônia diante de Olodumare termina, a pessoa inicia sua caminhada para o mundo. Ela chega na Fronteira entre o òrun e o àiyé, denominada Àkàsò, e encontra Oníbodè, o guardião da entrada, a quem passa a responder algumas perguntas antes de passar, e que se assemelha ao seguinte diálogo já traduzido:

Oníbode –           Para onde você está indo?

Pessoa –              Estou indo para o mundo.

Oníbode –           O que você irá fazer?

Pessoa –              Eu vou ser filho de um homem e de uma mulher chamados…, serei filho único, viverei em paz com todos e todas as coisas que farei darão certo. Aos 25 anos, meu pai morrerá, e, aos 50, será a vez de minha mãe. Construirei casas, terei família numerosa,… aos 75 anos ficarei doente e morrerei aos 80 anos de idade.

Oníbode –           Tó! (Está sacramentado)

Em seguida, a pessoa toma o caminho do mundo com o seu destino duplamente selado. Ao transpor o Àkàsò tudo é esquecido, inclusive o seu destino, com a passagem para o útero materno e o nascimento após o período de gestação. As determinações de Olodumare ficam definidas como lembra um tradicional provérbio: Igi t’Olórun gbìn kò si eni ti o lè fà a tu – “A árvore que Olórun planta, não há ninguém que possa arranca-la”. É uma alusão ao poder de dar e tirar a vida de uma pessoa, atribuição restrita unicamente a Olodumare.


[1] Texto extraído de: BENISTE, J. Òrun-Àiyé: o encontro de dois mundos: o sistema de relacionamento nagô-yorubá entre o céu e a Terra. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002, p.135-137.

OLODUMARE