Biografia parte 3 – Aprendendo pela dor e retornando ao caminho

Apesar de constatar a mediunidade nas minhas participações no programa de rádio, a experiência ainda não fora o suficiente para me fazer engajar nas coisas do espiritual e muito menos assumir a numerologia integralmente. Pelo contrário, a aproximação com este segmento me despertou o interesse por música, produção musical e cultural. Não demorei muito para procurar cursos nesta área e me especializar em marketing cultural. Da noite para o dia eu me vi em produção de shows, eventos, e até em agenciando artistas. Já estava casado e minha filha havia nascido e obviamente me povoava a cabeça a ideia de ganhar dinheiro, sustentar a família e de ter sucesso. Em função da minha ligação ainda profunda com o esporte, não demorou muito para me enveredar também pelo marketing esportivo vinculado a universidades, clubes e federações. Naquela época eu era um dos poucos especialistas desta área.  Logo após uma sociedade com supostos amigos e parceiros à ascensão, soberba e queda não demoraram muito a chegar e, nesta divina comédia, conheci a duras penas o anti- herói brasileiro “Durango Kid” como dizia meu pai: “duro, barbudo e com fome”. A parceria mal fadada iria decretar minha falência e marcar um momento de total privação material, humilhação e falta de perspectiva, que me deixou num estado depressivo de tamanha magnitude que me esqueci da numerologia, mais ainda, me esqueci de me socorrer nela. Só conseguia pensar no dinheiro que eu havia perdido e nas coisas que não conseguiria fazer mais sem ele.  A escuridão mental também era grande e o rodamoinho material que se instalou fez com que eu não visse e nem conseguisse usar meus conhecimentos para encontrar luz no final do túnel.  Segundo o médico e pensador Konrad Lorenz, a avidez cega pelo dinheiro, a pressa, a falta de reflexão e principalmente o medo fazem o homem perder suas qualidades essenciais e podem até fazê-lo perder as qualidades e realizações humanas. Ele ressalta que: “o medo de ser superado pelos outros competidores, medo de se tornar pobre, medo de tomar decisões erradas e de não conseguir suportar toda essa escorchante situação. O medo em todas as formas é, seguramente, o fator essencial que mina a saúde do homem moderno, provoca hipertensão, atrofia renal, enfarte prematuro e outras belas doenças do gênero.” Era exatamente como eu me sentia, percebi que eu era meu próprio inimigo, meu próprio obsessor competindo mais do que tudo comigo mesmo. A dor daquela perda e do fracasso me fez pensar sobre a vida e o sentido das coisas, não mais como um filósofo, mas um homem comum e preso às coisas materiais. Passando a hipervalorizar e potencializar os malefícios daquela situação, como se ela fosse me aniquilar. Naquele momento qualquer solução que me fosse oferecida para eliminar a dor e o medo eu aceitaria. Aprendi a máxima espírita, o homem aprende pelo amor ou pela dor e sem saber este seria o primeiro passo que me levaria de volta ao meu destino.

Alguns meses se passaram e a situação continuava inalterada. Foi quando minha irmã e meu cunhado Rubinho me fizeram um convite para ir à FEESP (Federação Espírita do Estado de São Paulo) na Rua Maria Paula, no centro da cidade. Eles já estavam frequentando há algum tempo, minha irmã fazia os cursos regulares e meu cunhado, além dos cursos, fazia o trabalho de triagem de mendigos e participava de um grupo de estudos.  Se a situação não fosse trágica seria hilária. Lembro-me das primeiras sessões nesta casa espírita: como de praxe no sistema espírita as pessoas assistem a uma palestra e depois entram na sala de passe. Eu entrava para assistir a palestra, mas não conseguia ouvir uma palavra sequer. Toda vez que o palestrante começava a falar eu sentia um sono incontrolável e dormia e, quando acabava a palestra como num passe de mágica, eu acordava. Eu entrava, sentava, dormia e assim fiquei durante as sete semanas em que se seguia o tratamento. Cheguei a pensar que o tratamento espírita era terapia do sono, não conseguia entender a razão de tanto sono e de não absorver nenhuma orientação que pudesse me ajudar naqueles tempos de penúria.  Se não fosse meu cunhado me convidar para seu grupo de estudos, certamente minha história com espiritismo teria acabado no fim daquelas semanas de terapia do sono. O grupo de estudo ao qual ele me convidara era de um segmento da linha espírita que se chama USE (União das Sociedades Espíritas). Poucas pessoas sabem, mas em SP existem várias entidades organizadoras do espiritismo ou, se quiserem, sociedades espíritas: a FEESP, USE, Aliança, Sinagoga e por aí vai. Pasmem, as divergências são tantas que parecem as brigas milenares dentro do catolicismo e das ordens budistas espalhadas pelo mundo. Depois de conhecê-los entendi porque o Chico Xavier ficou independente. Quem via aquele homem sereno e amistoso não imagina espíritas sentados à mesa se atacando (com reforma íntima, é claro!) ou nem sentados à mesa para dialogar. Devo confidenciar que me espantava a ortodoxia e o reacionarismo dos dirigentes espíritas. Enfim, esta unidade da USE ficava na Rua Renato Paes de Barros no Itaim, no prédio de Instituto de Educação Espírita que fora criado pelos baluartes do espiritismo (Canuto Abreu, Edgar Armon, Herculano Pires, entre outros) para ser uma escola de estudos superiores do espiritismo. Foi minha salvação, lá encontrei o que eu precisava. Era um curso que tentava explicar os fenômenos espíritas à luz da ciência e tinha como base o Livro dos Espíritos e algumas obras de André Luiz (mecanismos da mediunidade e evolução em dois mundos). Os cursos eram ministrados pelo físico Wladymir Sanchez e pelo tecnólogo em mecânica, Norberto Gaviolle, que traziam informações sobre ondas-pensamento, evolucionismo, matéria, energia, tempo/espaço, mecânica quântica, mediunidade e reencarnação. Foi meu primeiro contato com as obras psicografadas pelo espírito André Luiz. Fiquei espantado ao saber que os espíritas pouco conheciam sobre estas obras e alguns setores torciam o nariz ao falar sobre ele. Uma revolução de ideias começou a brotar e pouco a pouco fui saindo das trevas em que meu pensamento estava mergulhado e me despertando novamente. Aquelas explicações faziam todo sentido e minhas dúvidas sobre alguns fenômenos e a numerologia era pouco a pouco entendida. Desde muito acreditava em reencarnação, ou melhor, achava que a reencarnação fosse algo lógico e não careceria de ninguém me convencer sobre o assunto. Não é a toa que da primeira vez que estudei sobre numerologia e li a palavra cunhada por Pitágoras “metempsicose” (transmigração das almas), não me causou nenhuma estranheza.  Nunca tinha tido contato efetivo com o espiritismo até aquela data a não ser o filme sobre o incêndio no edifício Joelma e a primeira versão da novela “A Viagem”. Minha mãe era simpatizante e leitora de alguns livros espíritas, mas nada que fosse além destas referências. Mas ninguém dizia como, onde e porque a reencarnação acontecia, nem mesmo os espíritas mais fervorosos que conheci sabiam descrever o processo. As aulas e as obras de André Luiz me deram toda informação que eu precisava para ir mais a fundo na numerologia e finalmente entender a chave que eu dispunha em minhas mãos. Entusiasmado com as aulas, não demorei a interagir com a parte diretiva do grupo e auxiliá-los com meus conhecimentos em marketing e eventos. O grupo crescia e como alternativa se decidiu a criação de um instituto que se nomeou IPECE (instituto de pesquisa e ensino da cultura do espírito) que continua até hoje, embora com uma proposta diferente da inicial. Em função disto e da minha tendência a projetos megalomaníacos, idealizei para eles um evento que juntaria tudo que o espiritismo tinha produzido ao longo da sua história num único lugar. Estariam lá, as federações, confederações do Brasil e da América latina, médicos e psicólogos espíritas, grandes oradores, transcomunicadores, artistas de teatro e cinema, cineastas e diretores, pesquisadores, editoras e escritores, enfim, tudo e todos que pudéssemos juntar no evento e que tinham algo em comum com a temática espirita. Este evento ficou conhecido como primeiro ENCOESP. O lugar que eu havia idealizado era o Palácio de Convenções do Anhembi que pertence à administração da Prefeitura de SP. Numa destas coincidências da vida, naquela mesma semana, um amigo e sócio da minha irmã em uma agência de comunicação, Thobias da Vai-Vai, que também frequentava a FEESP, me convidou para acompanhá-lo numa reunião na prefeitura. Qual foi minha surpresa, esta reunião tinha como pauta a assinatura da Faculdade Zumbi dos Palmares, neles alguns membros que fariam parte diretoria da faculdade, eu, o Thobias, o prefeito Celso Pita, alguns secretários e assessores. Ao termino da reunião, Thobias me apresentou ao Celso Pita, expliquei a ele sobre o evento rapidamente e ele pegou uma folha timbrada da prefeitura, fez um despacho de punho e me encaminhou para o presidente do Anhembi que também era pró-reitor da Uniban e era conhecido como “Ameriquinho”. No despacho ele pedia total apoio ao evento e participação da prefeitura em termos de patrocínio (cessão gratuita do espaço). Assim aconteceu, o Anhembi foi cedido e todas as instalações disponibilizadas da maneira que eu tinha idealizado. Mas naquele mesmo ano, aconteceriam os problemas de tentativa de impedimento de Celso Pita, a vitória da Martha Suplicy e na sequência a transição e mudança de governo para o PT. O responsável pela equipe de transição petista Ruy Falcão, juntamente com a Martha, indeferiram os projetos assumidos pela gestão anterior, portanto nosso evento não teria mais o apoio da prefeitura. A alternativa seria cancelar o evento ou pagar o valor do aluguel para dar continuidade, o que tornaria inviável o nosso evento.  A notícia caiu como um tornado nas nossas cabeças, discussões e acusações se seguiram e obviamente a decisão mais difícil: parar quando já estávamos com todo o evento produzido a espera da data de início, frustrando assim todos os envolvidos ou esperar um patrocínio milagroso. Foi quando mais uma das coincidências aconteceu: acordei no dia seguinte e tive a ideia de procurar o Senador Suplicy. Peguei o telefone do congresso, hoje não me lembro como eu consegui, liguei para seu gabinete, sua secretária atendeu e prontamente me passou o seu celular. Liguei, ele atendeu e para minha surpresa disse que estava fazendo exercícios (caminhada) e que após iria para a FGV na Avenida 9 de Julho e poderia me atender lá. Segui para a FGV aonde ele dava aula e lá o encontrei com sua roupa de atleta, sereno, solícito, humilde e humano. Conversamos e ele se prontificou imediatamente a ajudar-nos junto ao governo de transição, fez algumas ligações e pediu que eu aguardasse o retorno. Já tinha me impressionado como Celso Pita tinha agido, mas o Suplicy me impressionou, não porque se interessou em me ajudar, mas pela humildade e aura. Ele não pertencia a nenhuma instituição religiosa, não professou nenhuma crença e muito menos fez qualquer pergunta sobre a crença espírita. Ele simplesmente ajudou, foi caridoso e generoso. Claro que ele tem uma folha de serviços à comunidade, nem precisa que neste breve relato o defenda ou declare apoio de qualquer espécie. Em minha opinião, se outros homens públicos fossem como ele, talvez estaríamos num mundo melhor. Com a intermediação dele e de outros conseguimos, não a totalidade do apoio, mas o suficiente para realizarmos o evento que durou três dias e teve a presença de mais de 20.000 pessoas. Muitos dirigentes e aproveitadores assumiram posteriormente a propriedade intelectual e gestão do ENCOESP e durante muito tempo eu omiti esta história. Não o faço agora com a intenção de evidenciar minha presença. Mas de contar as pessoas como a espiritualidade age nos nossos caminhos e fazer justiça a estes dois personagens que em tese nada tem haver com os homens chamados de fé. Com eles aprendi que para ser caridoso ou generoso não precisa ter um livro sagrado na mão, pertencer a uma religião, crer em Deus ou num destino.  Em alguns casos, os ateus, céticos e independentes são muito mais espiritualizados dos que aqueles que se dizem ou professam alguma religião. Digo o nome destas pessoas como prova do meu agradecimento, pois sem eles eu teria perdido a esperança e não faria o que faço hoje. Eles são parte do meu aprendizado espiritual que paralelamente a estes acontecimentos passo a contar agora…

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Biografia parte 2 – da vida material e o despertar da mediunidade

A numerologia me surpreendeu com certeza, mas minhas atividades eram intensas naquele momento. Meu tempo se dividia no voleibol com treinos na parte da tarde, jogos semanais à noite e viagens aos fins de semana; na madrugada e intervalos eu tentava entender Heidegger, Hegel, Nietsche e tudo que se relacionasse à filosofia. Na parte da manhã, as aulas na faculdade e a frequência assídua num bar na Rua Monte Alegre conversando sobre filosofia e a vida, com meu amigo e professor Wellington; sorte minha e a dele que eu era contínuo abstêmio e ele só tomava café. Curioso foi que com ele, além de Hegel, aprendi astrologia. Estranho pensar num cara como este que mantinha um discurso materialista dialético convicto em sala de aula e, ao mesmo tempo, era apaixonado por astrologia, Umbanda e Candomblé. Só mais tarde percebi que não tinha nada de estranho naquela forma de Ser.  Foi através deste interesse apaixonado dele que num belo dia ele me perguntou se eu conhecia um pai-de-santo para fazer uma palestra para professores da PFTHC, Teologia e Ciências Sociais. Pensei no meu pai, mas ele prontamente declinou e pediu que eu falasse com meu “tio” Arthur. Ele era a pessoa que tinha iniciado meu pai, já era um pai-de-santo experiente e cuidava de todas as coisas espirituais dele e de muitas outras pessoas. Meu “tio” tinha raízes na Bahia, precisamente em Cachoeira e era filho de santo de um terreiro chamado a Casa do Justo, do finado Pai Justo, ambos famosos por serem profundos conhecedores das mandingas, feitiçarias e curas. Pai Justo vinha de uma tradição do fim do século XIX, pós-abolição. Dizia meu pai: “estes dois sabiam curar e matar com uma folha e uma reza”.  Meu tio aceitou e a palestra foi um sucesso, todos ficaram encantados com a profundidade dos seus conhecimentos. Foi nesta palestra que percebi que o Candomblé era uma ciência também, mas ainda, que todo este conhecimento estava dentro da minha própria casa. Fez-me lembrar de um livro do Paulo Coelho que dizia: “A pessoa viaja o mundo inteiro e a resposta está no jardim dela”. Então eu tinha enfim olhado pro meu jardim. Mas ele veio a falecer tempos depois e não tive tempo de aprender o que precisava. Hoje sei o quanto faz falta tudo que ouvi e não pude experimentar e utilizar.  Neste meio tempo minha mãe também faleceu e o espiritual que tinha despertado em mim, se ofuscou e adormeceu. Só anos mais tarde iria entender que aquele era um ciclo importante da minha trajetória e que a morte dela prepararia minha iniciação espiritual, mas isto é um capítulo a parte, que estará nas páginas do livro “Os Portais de Paraty e o Templo da Liberdade Tupinambá”, da Editora Griot, que será lançado em 2014.

Anos já tinham se passado e o término da faculdade me fez pensar o quanto o “faculdes” -como dizia o professor Milton Santos – me desiludia e me fez ter a certeza que eu não queria a sala de aula. Filosofar para mim não podia se limitar a discussões de grupos fechados, textos dos textos, citações e teses que só as bancas iriam ler. Foi quando recebi um convite inesperado de um consultor de projetos em marketing bancário (estudo de viabilidade e realocação de agências), seu nome era Cid Nardi. O discurso e o projeto dele vieram a calhar, achei que seria uma forma prática de fazer algo para mundo. Além disto, a carreira esportiva sofrera um baque. Estava na equipe de Suzano, tinha recebido uma proposta para um clube da Europa, mas por questões contratuais, má vontade dos diretores e em seguida uma contusão fizeram com eu não me transferisse e isto acabou por esfriar meu ímpeto de jogador e lá fui eu estagiar na empresa do Cid. Adaptei-me tão rápido que tempo depois eu mesmo já tinha uma empresa de marketing e eventos em sociedade com alguns amigos.

Nesta mesma época minha irmã trabalhava como locutora e apresentadora na Rádio Transcontinental FM que tinha uma programação de samba, levava multidões aos seus shows de rua em diversos bairros da cidade e já era uma das mais ouvidas de São Paulo. Ela me apresentou o dono da rádio, Cid Luiz, rapidamente fizemos amizade e ele me perguntou se eu conseguiria fazer numerologia para os ouvintes do programa dele ao vivo. Disse que sim e minutos depois ele entrou no estúdio para fazer o programa, me apresentou e sugeriu aos seus ouvintes que ligassem e passassem seus nomes e datas de nascimento e fizessem perguntas sobre suas vidas a mim. A cada sequência de músicas um ouvinte era escolhido pelas telefonistas e entrava ao vivo, pedia sua música e me fazia uma pergunta. Já no primeiro dia, foi um estouro de telefonemas e uma enxurrada de perguntas e, a partir de então, passei a fazer parte da programação semanal da rádio. Chegaram até a bolar uma vinheta para minha participação diária com previsões numerológicas chamado “Transvibrações”, que eu fazia no horário do programa da minha irmã e semanalmente intercalado em alguns programas com locutores variados. Mas foi com a locutora Patricia Liberato que acabei permanecendo mais tempo fazendo minhas participações. Eu recebia centenas de telefones, e-mails e cartas com todo tipo de pergunta que se possa imaginar. As campeãs obviamente eram sobre o amor e trabalho. O que impressionava era a faixa etária, adolescentes em sua grande maioria. Como a demanda era absurdamente grande, mesmo ficando horas no ar, perguntas e pedidos se acumulavam. Graças ao atrevimento da Patricia e ajuda das telefonistas passamos a ler todos os casos e escolher assuntos ligados a fenômenos de toda ordem (sonhos, mediunidade, aparições de espíritos, doenças, etc.,) e intercalar com os assuntos da demanda diária, o que possibilitou que eu falasse sobre espiritualismo, filosofia e história das religiões. Isto aguçou ainda mais os ouvintes e depois de um tempo passamos a receber ainda mais pedidos de orientação. Sem perceber, de numerólogo já passaram a me chamar de guru e a partir daí alguns católicos e tradicionalistas passaram a reclamar. Não diretamente a nós, mas à direção da rádio, que como resposta foi pouco a pouco nos afastando até que nossos horários não se cruzassem. Assim evitaram maiores problemas com a ala descontente e de nos repreender formalmente. Mas o rádio é um veículo tão formidável e rápido que conseguimos falar de numerologia pra muita gente, e seja qual for o recado que deveríamos dar às pessoas já tinha se propagado durante aqueles dois anos que durou. Mas para mim, este desafio da rádio foi muito mais do que a chance de falar a muitas pessoas. (Para se ter uma ideia do universo de alcance da rádio, eram aproximadamente 400.000 ouvintes por minuto no seu pico de audiência). Essa experiência me fez descobrir minha capacidade mediúnica: percebi que no momento que as pessoas faziam a pergunta e eu olhava para os números acontecia uma catarse, uma viagem! Eu ouvia sons, me vinham imagens, cheiros e um filme daquela pessoa em milionésimos de segundos. Muitas vezes pensei que o próprio canal rádio poderia provocar esta sensação, por ser em tempo real. Mas sempre que tentava racionalizar, eu gaguejava, paralisava e não via nem conseguia elaborar nada na minha cabeça. Mas quando eu usava a intuição e deixava fluir o que vinha de dentro sem filtro, minha voz então saía precisa, cirúrgica e com conteúdo da história da pessoa. Era impressionante: o locutor ou a pessoa fazia a pergunta, eu olhava os números e imediatamente dava a resposta, dizia sim ou não com uma firmeza que não tinha nem para jogar voleibol, que era puro treino e repetição. Não tinha dúvida que aquilo era mediunidade, minha mediunidade que se abria no instante em que eu olhava os números da numerologia…

Biografia parte 1 – o caminho de Luiz Alexandre Jr. até a numerologia

Luiz Alexandre percorreu um longo caminho até entender que a numerologia é seu código de acesso ao universo espiritual, à espiritualidade e ao conhecimento sobre o mundo. Foi através dessa compreensão que ele resgatou sua forte formação espiritual familiar, suscitando o desejo de perpetuar a tradição contando esta história aos seus descendentes.

Esta tradição começa com seu pai que encontrou antes dele nascer ajuda espiritual no Candomblé, e como primeiro filho homem, deveria ser ele o herdeiro espiritual, já que no Candomblé o homem é o Babalaô, o líder que carrega a responsabilidade espiritual da família. “Meu pai dizia que eu nasci de promessa para cumprir esta tradição”. Mas, ironias do destino, isso não ocorreu. Luiz Alexandre nasceu em 27 de agosto e sua irmã Claudia Alexandre 11 meses depois, em 16 de agosto, exatamente na data do ritual mais importante da família e coube a ela a responsabilidade de receber a herança espiritual. Esta desobrigação espiritual o fez trilhar caminhos diferentes. Desde cedo seu pai o iniciou na prática esportiva, aos 5 anos já competia em provas de atletismo e nesta modalidade ficou até os 18 anos quando decidiu migrar para o voleibol e se profissionalizar. Atividade que abandonou profissionalmente apenas em 1999 aos 34 anos.

Já nesta época, despertava seu interesse os assuntos esotéricos, pirâmides, ufos, gnose e paranormalidade. Mas um encontro iria mudar sua vida e afastá-lo temporariamente destes assuntos. Decide fazer colégio técnico em processamento de dados no colégio Fernão Dias Paes (Osasco) e lá encontra aquela que seria sua amiga, professora e mentora, Lucia Skromov. Professora de literatura, língua portuguesa e teoria da comunicação. Diz Luiz: “Ela me apresentou Mário e Oswald de Andrade e a Semana de Arte Moderna, Freud, Jung, Satre, Pierce e a semiótica. Aquilo literalmente virou minha cabeça, nunca mais fui o mesmo. Daí bater na porta da filosofia foi questão de horas. Lucia era de uma inteligência ímpar, ex-guerrilheira zapatista, poliglota. Mostrou-me, uma realidade política que eu não imaginava que existisse. Certo tempo a ajudei como auxiliar de campo em sua tese de mestrado que falava da tortura como linguagem (ela mesma tinha sido vítima de torturas no DOI-CODI). Em razão disto, conheci o reverendo James Wright (que teve seu irmão perseguido pela ditadura) que, juntamente com Dom Paulo Evaristo Arns (frade franciscano), foi defensor dos diretos humanos contra ditadura. Seguramente a amizade entre eles foi o maior exemplo de ecumenismo, um pastor presbiteriano e um arcebispo católico (James faleceu em 1999). Lembro-me de ter estado em sua residência para uma entrevista, quando ele me deixou ver um livro chamado “Livro A” que serviu de base para o livro “Brasil Nunca Mais”. Está ainda clara na minha mente esta imagem, eu folhando as páginas do livro ouvindo o relato dele sem conseguir parar de chorar diante de tanta barbárie cometida contra a juventude daquela época pela ditadura militar. Quantas mentes brilhantes a ditadura simplesmente enterrou. Eram dias de grande preocupação para minha mãe… ela temia que eu fosse reeditar focos de luta armada e já me considera um subversivo engajado. Se tivesse nascido uma geração antes, certamente eu estaria entres eles”.

Nesta época sua casa tambem era ecumênica: seu pai era adepto do candomblé, sua mãe era espírita e sua irmã estava iniciando um caminho na Umbanda. Neste mesmo momento ele decide que quer filosofia como carreira universitária. Ingressa na FAI (faculdades Associadas do Ipiranga) porque era a única faculdade semestral e ia de encontro ao seu desejo de iniciar rapidamente e experimentar este novo universo. Logo percebe que não fora uma boa escolha. A FAI era uma universidade aonde a filosofia era porta de entrada para o curso carro-chefe que era Teologia. Seus companheiros eram em sua maioria seminaristas se preparando para serem padres. Ele conta: “As primeiras divergências logo apareceram, algumas disciplinas eram sem pudor nenhum voltadas para a Teologia, lá éramos divididos entre normalistas (aqueles que não iriam virar padres) e seminaristas. Não demorou muito e discuti em sala de aula com professor e pró-reitor Pe. Dario, que não teve dúvida em me convidar gentilmente a sair da Faculdade, convite que eu aceitei na mesma hora. Curioso é que lá conheci também figuras no mínimo excêntricas. Existencialistas, suicidas frustrados e teosofistas que se encontravam regularmente como um grupo de estudos, era como uma ilha subversiva dentro das paredes castradora da FAI”. Por influência deles (grupo teosófico), começou a estudar budismo, piramidologia e até haja-yoga, mas logo as coisas se ajeitaram pois no final de ano ele ingressa em filosofia PUC-SP, algo que muda novamente sua trajetória.

Mal sabia ele que nos corredores e na biblioteca da PUC ele iria se encontrar com a Numerologia. E ali as coisas tinham outra abordagem e a liberdade era o ar que se respirava. Como ele lembra: “Naquela época os alunos dos primeiros anos faziam o que se chamava de curso básico (você fazia disciplinas do seu curso regular e mais algumas oferecidas pelas outras faculdades). Curiosamente logo me apaixonei e me identifiquei por uma das disciplinas que tinha a abreviação PFTHC (problemas filosóficos e teológicos do homem contemporâneo), a teologia lá novamente me perseguindo! Não demorou muito e veio o primeiro seminário e o professor deu tema “místico”. Fui pesquisar na biblioteca e ao abrir um livro de história da filosofia, vi o nome Pitágoras. Foi como se batesse um sino na minha cabeça, mas ele não é estudado na filosofia, pois ele é considerado mais um místico do que filósofo. Embora acredita-se que tenha sido ele a usar primeiro a palavra “filosofia”. Nada encontrei de substancial, naquela época o Centro Cultural Vergueiro (local que por anos frequentei  assiduamente) tinha sido recém-inaugurado e me dirigi para lá.  Eu, como muitos, gosto de tocar livros e, a biblioteca do Centro Cultural é o oásis para pessoas como eu”.

 Não demorou muito para encontrar livros com o título de numerologia. Mas só foi seduzido pelo assunto ao se deparar com um autor português que fazia a análise do nome de vários artistas famosos que já tinham falecido. Assim, teve a ideia de fazer a numerologia dos grandes avatares, como Buda, Jesus, Moisés, e constatou que todos tinham números que, segundo a análise numerológica, eram de indivíduos materialistas. Nenhum dos nomes continha o que poderia ser considerado “Número Espiritual”. “Ao comparar a história de cada um deles percebi que principalmente Jesus, Moisés, Maomé, Gandhi e outros foram perseguidos e/ ou tiveram sucesso porque tiveram uma atitude muito mais política do que espiritual. Suas posições políticas incomodaram muito mais do que suas doutrinas. Foi o que mais me interessou à primeira vista.”  Veio o seminário e sua apresentação foi impecável, abordando o significado de cada número e as conclusões históricas. No fim da apresentação, uma surpresa: seus colegas e até o professor fizeram fila para que ele fizesse a numerologia de cada um deles. “… exercício que continuo a fazer há quase 21 anos…”

Luiz Alexandre Jr.

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Luiz Alexandre Jr.

Luiz Alexandre Jr., 49 anos, é pesquisador, escritor, numerólogo e espiritualista. Autor dos livros “Numerologia – A chave do Ser” (Editora Talento, 2002) e “Numerologia do Tempo” (Talento, 2007), Luiz Alexandre é presidente do Cecure – Centro de Estudos, Pesquisas Aplicadas e de Terapias de Cura Espiritual, fundado em 2009 em São Paulo,  e do Templo da Liberdade Tupinambá em Paraty-RJ, fundado em 2011.