Cunhambebe chora canonização de José de Anchieta

[…]Os índios eram pacíficos, não conheciam nada dos brancos, só conheciam a natureza que lhes dava tudo de comer e de curar alguma doença do mato, ferimentos ou comida mal digerida. Seus deuses eram as forças da natureza. Não tinham armas de fogo nem facas e facões porque não conheciam o metal, nem prisões. Os portugueses, para usar seu trabalho escravo, impunham grande pavor, matando, esfaqueando e prendendo com correntes de ferro os desobedientes.

Cansados de tanto sofrimento, os índios começaram a se revoltar atacando os invasores em suas aldeias, porém, poupando as mulheres e crianças que para eles são criaturas sagradas. Diferente dos portugueses, que quando atacavam arrasavam tudo, matando quem estivesse pela frente. Caciques de diversas tribos, liderados por Cunhambebe, (Koniam-bebê) – homem de dois metros de altura cujo nome vem de sua gagueira e fala arrastada, resolveram pôr um fim a tantas injustiças e combinaram um grande ataque para expulsar de vez aqueles homens brancos muito maus.

Comandados por Cunhambebe e pelos caciques Aymberê, Caoquira e Pindobossú, os índios eram muito numerosos. Os registros do Padre José de Anchieta indicam a chegada de mais de duzentas canoas com mais de vinte índios cada uma, além dos milhares que vinham por terra, provenientes das tribos situadas nas planícies acima da Serra do Mar. Se a batalha tivesse acontecido, os portugueses seriam arrasados e expulsos do litoral de São Paulo, e os franceses, que dominavam o Rio de Janeiro e que se relacionavam muito bem com os índios daquela região, teriam tomado a terra brasileira das mãos da Coroa Portuguesa. A história seria outra. Mas a batalha não aconteceu.

Os portugueses auxiliados pelos jesuítas que tinham grande poder sobre a bondade na Terra e suas recompensas na eternidade, conseguiram aplacar a ira dos chefes morubixabas com promessas de castigos divinos e muitas ameaças do furor das forças da natureza, que era a única coisa real que orientava as ações e os pensamentos daqueles homens primitivos em seu estado natural mais puro.

É verdade que alguns índios duvidavam daquelas palavras, mas seu temor era tanto que não ficaram senão algumas memórias dessas dúvidas. Existe o registro de uma reclamação do cacique Aymberê que foi tema de uns versos escritos sobre aqueles tempos, que revela bem as dificuldades dos índios com as coisas que lhes eram ditas pelos padres. Diz um trecho do poema encontrado em velhos arquivos baseado nas indagações de Aymberê ao padre José de Anchieta:

“Não conhecem acaso os portugueses.

Essa pia doutrina que nos pregas?

Como, pois contra nós, em guerra assídua,

Sem medo de seu deus, cruéis se mostraram?

Ou, só porque de deus ao filho adoram,

Lhes foi dado o poder de perseguir-nos?

Mas se do céu as leis desobedecem

Que deus é esse então que os deixa impunes,

E vem por tua boca ameaçar-nos?”

Os índios recolheram seus arcos, flechas e bordunas em atenção às promessas de paz e convivência com os brancos garantidas pelos jesuítas. Depois de uma viagem do cacique Cunhambebe a São Vicente junto com o padre Manoel da Nóbrega para acerto dos acordos de fim das hostilidades, foi combinada a Paz de Yperoig, que serviu de argumento para o desânimo dos franceses que queriam ver os portugueses expulsos. Cunhambebe e seus guerreiros acreditaram na boa fé dos acordos. Os vários chefes com seus homens se dispersaram, se desarmaram e voltaram para suas tribos, e até hoje se comemora a paz de Yperoig como uma data importante que garantiu a unidade do Brasil contra as ameaças de divisão, graças ao trabalho de catequese e união promovido por Anchieta, Nóbrega e seus companheiros. Mas a história não comenta que logo depois de terem se desarmado e se dispersado, os índios foram massacrados pelos rudes e estúpidos colonizadores portugueses interessados no ouro, nas riquezas e nas terras descobertas.

Cunhambebe morreu doente, ferido no corpo e na alma, envergonhado diante da humilhação a que levou seu povo por ter acreditado na palavra dos brancos. Sabendo da importância que os portugueses deram àquela data, pouco antes de morrer o grande cacique lançou uma maldição contra os invasores e seus descendentes dizendo que as terras de Yperoig que eles tanto quiseram seriam as terras do fracasso, que lá nada daria certo, tudo que se começasse não chegaria ao fim. Grande entusiasmo no início e resultado miserável no final.

E assim tem sido a história de Ubatuba, seus ciclos econômicos sempre interrompidos, seus negócios e empreendimentos sempre fracassados. Já quiseram fazer porto de turismo, indústrias do pescado, faculdades, nada dará certo por lá enquanto se comemorar a Paz de Yperoig como homenagem ao trabalho dos jesuítas, esquecendo-se de que ela só foi possível porque enganaram a boa fé daqueles homens primitivos e os traíram matando seus chefes e humilhando seu povo, os verdadeiros donos da terra brasileira.

Mas a maldição dos índios não é eterna, seu desejo não é vingança e sim serem tratados com dignidade e respeito. Para acabar com os efeitos da Maldição de Cunhambebe basta parar de comemorar a Paz de Yperoig da forma como ela é comemorada, que ignora o papel e a traição cometida contra os índios. Para isso a Câmara Municipal de Ubatuba deveria aprovar uma lei extinguindo o dia da Paz de Yperoig criando em seu lugar o dia de Cunhambebe e dos Índios do Litoral Norte. A paz que uniu o Brasil deveria ser atribuída ao martírio dos índios, da mesma forma que a independência do Brasil é atribuída ao martírio de Tiradentes. Para manter viva a homenagem, estátuas de Cunhambebe, Aymberê, Coaquira e Pindobussú deveriam ser erguidas nos principais pontos da cidade. Aí a nossa história será outra, podem crer…[…].

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Renato Nunes – “A maldição de Cunhambebe”

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